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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Edson Moura

Recebo hoje aqui no Literária 15 meu grande amigo Edson Moura. Um autor capaz de canalizar o mundo a sua volta com perfeição e talento para dentro de uma obra cuja premiação é inevitável. Nascido na cidade de Guarulhos – SP. Morou parte da infância em São Bernardo do Campo, presenciando a movimentação de metalúrgicos do final da década de 70 e início dos anos 80. Mudou-se para o sertão baiano, vivendo e colhendo as imagens desse universo árido e fantástico que serve de palco para suas histórias. Conquistou menção honrosa em alguns concursos de conto, que serviram como estímulo para publicação de seu primeiro livro, O Silêncio das Vespas. Atualmente, reside no agreste pernambucano.

Seus contos transmitem emoções e pensamentos profundos, de uma maneira singular; somos levados pelas histórias, persongagens, encontros e desencontros a refletirmos sobre as muitas facetas da realidade a nossa volta.

Personagens ricos e imersos a dramas intensos povoam o sua obra desafiando os conceitos mais rígidos. Afinal, desafio é uma tendência em sua escrita, impulsionado às novas experiências literárias, o autor não teme arriscar e triunfa de maneira esplêndia, coroado por dignos reconhecimentos. Um grande escritor, sua consequência: uma grande obra.

"O Silêncio das Vespas" é um livro de contos com temática variada. Tratam-se de contos escritos ao longo da vida, ou foram criados especificamente para essa obra?
Reunir contos para agrupa-los em um livro é sempre um trabalho delicado. Pois há uma preocupação, mesmo que intuitiva, de como as histórias serão ordenadas; se há semelhança quanto a temáticas destes contos; se há um distanciamento, entre um conto e outro, quanto às estruturas linguísticas e etc. Quando estava estudando sobre quais histórias iria colocar no livro, procurei não ter em mente estas preocupações, visto que, alguns contos foram escritos a mais de dez anos e outros, recentemente. Mas consoante a essa falta de preocupação: seguir determinadas regras ou especificar tipos de contos para um determinado livro, existia, por mais paradoxal que pareça, um compromisso em achar algum elemento que concatenasse as histórias. Para meu espanto estes elementos estavam lá, escondidos entre a construção dos personagens. Posso afirmar que “O silêncio das Vespas” foi idealizado ao logo de um pedaço de vida, sem intenção de um dia se tornar uma obra concreta, mas acabou se tornando.

Segundo você, os personagens são criados com base em sondagens do inconsciente. Para a construção dessa base rolou mais pesquisa ou experiência própria, intuição?
A sondagem do inconsciente, e também do subconsciente, mesmo intuitivamente, sempre existiu na literatura, partindo dos tempos Homéricos até chegarmos às expressões literárias contemporâneas. É imprescindível conhecer as artimanhas do inconsciente, principalmente quando estamos “criando” uma personagem. Concordo muito com as palavras do escritor pernambucano Raimundo Carrero, no qual ele afirma veementemente que:”no momento em que estivermos criando uma personagem, devemos ser, naquele instante, aquele personagem, seja ela qual for. Caso contrario, fracassemos”. Se em uma história tivermos três personagens, serão três mentes, ou três inconscientes com características diferentes. Seria como se estivéssemos representando numa peça de teatro com três personagens, só que transcrevendo para folha a história e o enredo: com seus conflitos, etc. No meu livro houve a presença de três recursos: a intuição, bastante trabalho e as experiências vividas, estas últimas são a matéria prima mais importante para construção dos personagens.

Seus contos são incríveis, há neles um verdadeiro duelo na mente humana entre presente e passado. Todo esse universo dos seus contos trata-se de um estilo a ser expresso em outras obras?
A todo instante presenciamos este conflito. O consciente humano se confrontando com os pensamentos que a mente produz. Pensamentos estes que podem estar no passado, presente ou futuro. Este tipo de “prisão”, no qual os personagens de “ O silêncio das Vespas” estão inseridos, não é um estilo ditado pelo autor, e sim pelos próprios personagens. Por exemplo, no meu segundo livro que sai em Julho, se tudo der certo, o conflito entre mente e tempo não existe, porque na construção da personagem principal não foi exigido este estilo. Já no terceiro livro que sai em dezembro deste ano, é muito forte a presença de acontecimentos nos passados na vida dos personagens. O estilo oscila de acordo com a confecção da personagem.

Em "O Silêncio das Vespas" você usa e abusa da experimentação. Dentro dessa abordagem de inovar, há um interesse seu por se lançar em obras de outros gêneros, ou ainda escrever livros de não-ficção?
Experimentação pode ser uma “faca de dois gumes” para o escritor. Se pretende escrever e publicar uma obra literária explorando recursos que façam com que o conto fuja das formas vigentes, ao mesmo tempo que esta prática possa lhe agradar, também pode desagradar o público leitor, ou pode agradar bastante, isto vai depender do gosto de cada leitor ou grupos de leitores. Além disso as experimentações que eu ou qualquer outro escritor possa fazer dentro de sua obra, podem ter sido feitas por outros escritor em alguma parte do mundo, pois milhares de obras literárias são publicadas a cada momento. Como exemplo temos o romance “A sangue frio” de Truman Capote, que o lançou como sendo uma nova forma literária, o chamado “romance não-ficção”. Podemos encontrar estes mesmo elementos linguísticos contidos na obra de Capote em “Os Sertões”de Euclides da Cunha, escrita décadas antes. É preciso ter um pouco de cuidado quando o assunto é experimentação. Mas, sem dúvida, o grande trunfo do escritor que procura inovar é que este consegue construir seu próprio universo literário com maior liberdade: com recursos estéticos próprios, novas formas de expressa sensações, criando assim a personalidade do autor. Nada impede que um escritor fique preso a um mesmo tipo de gênero, posso trabalhar a ficção, a não-ficção, o teatro, usar fragmentos de uma peça de teatro como conto, o prelúdio de um romance como conto e etc. Faço muito isso em meus livros, assim como outros autores.

O sertão baiano serviu de palco para sua imaginação. Como você vê a relação de autor e ambiente a sua volta, mais especificamente o lugar onde se reside?
Nasci em Guarulhos, SP, num momento em que o Brasil passava por profundas mudanças: o país estava saindo de uma ditadura, o ambiente paulistano no qual eu estava inserido era o ABC, com toda aquela agitação de metalúrgicos, o coração da indústria Brasileira. “E de um instante para o outro, por motivos de força maior, estava morando no município de Jaguararí, num lugar chamado Pilar,” Lugar Mágico” como costumo afirmar para mim mesmo,lugar no meio do sertão baiano. Foi neste ambiente árido e cheio de mistérios que comecei a construir meu universo literário, não é necessário ter em mãos papel e lápis para criar uma história. Me embreava na caatinga com meus amigos, caminhávamos léguas de distancia, subindo em morros, vendo toda aquela vastidão, vendo tudo aquilo como se realmente estivesse dentro de um historia, as nossos próprias aventuras. Para poder construir uma obra o autor precisa antes, construir seu próprio mundo literário, para então convidar o leitor a entrar neste mundo e desfruta-lo a sua maneira. Este mundo, muitas vezes, é o próprio ambiente onde moramos ou já moramos, com os amigos e tudo mais. Sendo estes disfarçados com transfigurações e metáforas. Simplesmente.

Você conquistou menção honrosa em alguns concursos de contos. Como esses prêmios mexeram com seu propósito de escritor? Conte-nos essa experiência.
Fiquei surpreso e um pouco assustado. Não imaginava que uma comissão julgadora fosse escolher meus textos e coloca-los entre finalistas de um concurso, e em seguida publica-los em antologias com menção honrosa. Aconteceu por acaso. Sempre compartilhei meus textos com amigos. Alguém me mostrava um poema ou uma crônica e eu presenteava com um de meus textos. Chegou o momento em que um amigo, o escritor e poeta Jonatas Bezerra, começou a me enviar links de concursos literários, me incentivando a participar. Os prêmios literários são de extrema importância para os escritores que estão iniciando seus trabalhos literários. Pois além de incentivar, ajuda a colocar o autor no caminho para a concretização de sua obra. Mas independente de qualquer prêmio ou menção honrosa que o autor venha a receber, deve haver um compromisso continuo com sua própria obra. Com aquilo que ele escreve. Deve estar sempre tendo contato com as novas concepções literárias, ler novos autores, conhecidos ou não, saber o que é contemporâneo, estar cientes de que podemos, através da literatura, fazer a diferença. É importante ter consciência de que para sermos bons escritores é necessário bastante trabalho e força vontade para ver nossa obra concluída.

Como um autor premiado e instigado pela novidade, qual a sua visão sobre os rumos da Literatura Brasileira atualmente?
Tem crescido muito por parte do governo os programas de incentivo a produção literária. Editais oferecendo financiamentos e bolsas para publicação aparecem todos os anos. Mas ainda de forma muito seletiva. Isso acaba deixando muitos escritos bons de fora. Sendo estes obrigados a tirar dinheiro do próprio bolso para pagar a publicação, como acontece com 90% dos escritores brasileiro. Alias são poucos no Brasil os escritores que vivem de literatura. Para alguém sem suporte econômico-familiar, é desafiador trabalhar com literatura. O escritor tem que colher pelo caminho tudo que posso ser usado para ajudar no seu trabalho. Mas em meio a estas dificuldades podemos enfatizar o número de livros publicados e editoras que crescem a cada ano, números bastante positivos. Cada vez mais, novos gêneros ganham espaço no mercado. A formar literárias marginais sendo difundida pelo país: a literatura policial, a literatura de mistério, a literatura fantástica. Tão importante em sabermos quem somos na literatura, é sabermos que rumos estamos tomando. E isso as novas gerações de escritores irá dizer. É preciso que o público, o governo, o mercado e o próprio escritor se atenham a esta responsabilidade.


O Silêncio das Vespas

Em O Silêncio das Vespas, o autor arquiteta narrativas com um olhar que capta cotidianos ambíguos e fantasiosos, explorando narrativas carregadas de um imaginário trágico e misterioso. Em suas páginas, representações ásperas de devaneios criados pelo inconsciente de personagens que não conseguem separar passado e presente: “Ela aguardava todas as noites a sua volta, sentada na rede de balanço, sentindo o vazio, como alma sem rumo. Com ansiedades de sentimentos que não amadureciam com o passar dos dias, com vestidos engomados e cheirando a ventos passados”. Na construção psicológica dos personagens, surgem conflitos vindos de acontecimentos do passado, mostrando narrativas que misturam realidade e mitos oriundos da relação intrínseca do tempo com a alma: “Não haveria como voltar, afinal, tudo passa. Mas havia conquistado a liberdade de estar ali, à beira de um rio de tempo, observando suas águas correrem na direção que a natureza impusera, observava, apenas”.

Editora: Baraúna http://www.livrariabarauna.com.br/
Autor: Edson Moura

Luís Delgado