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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Marcelo Vinicius

Recebo hoje aqui no Literária 15 meu grande amigo Marcelo Vinicius. Um escritor virtuoso que nos traz um livro onde o mergulho nas questões humanas é extremamente profundo e revelador. Sua obra relata uma história real, marcada pelos anseios humanos, proporcionando uma investigação impressionante, rica em detalhes e que pode ser transferida para aspectos próprios dos leitores.

Levar a se conhecer, dentro de uma cativante trama, o autor consegue estabelecer um grande vínculo atrativo, dono de um estilo que consegue harmonizar ficção e realidade de maneira única.

Na estrada de excelentes autores, esboça sua visão de mundo, suas concepções artísticas, sua alta capacidade de observação e pontos de vista fortemente transformadores. Traz grandes questões, esboça dilemas fortes, e nos revela um talento incrível, mais um grande nome da nova literatura brasileira.

"Desafios de uma mente" é uma obra que transportou uma história real para a Literatura. Até que ponto essa transmutação foi incrementada com ficção? Os conflitos mentais dos personagens tiveram de se adaptar à história, ou aconteceu o inverso?
A ficção nessa obra foi à mínima possível. O que foi modificado tinha como intuito somente de manter a privacidade do indivíduo. Já a história teve que se adaptar aos conflitos mentais. Era necessário que a realidade, tanto objetiva como subjetiva, fosse defendida ao máximo. Por isso esse caso foi acompanhado, analisado e as questões mais intimistas do sujeito, foram relatadas por ele.
A insanidade é um mal ainda incompreendido pela sociedade, mas já rendeu bons frutos para as artes, principalmente para a literatura e aqui não é diferente. Na obra há uma mistura de dados biográficos com uma roupagem ficcional.
Houve uma época que esse tipo de literatura irritava muito os críticos, porém Lima Barreto ousou ao se expor nas próprias obras de ficção. Assim ele acabou criando uma literatura que transgrediu códigos e venceu limites entre vida e obra, lucidez e loucura. A partir desse feito, fosse na ficção, nas crônicas, etc. o que interessava era dizer o indizível.
É do seu estilo uma literatura realista. E valoriza essa característica mesmo que permeada no gênero fantástico. Existe a curiosidade, ou a intenção, de um dia mergulhar nesse gênero? Mantendo ou não o realismo?
Não penso como será a minha nova escrita, no que se fere ao gênero. Eu deixo que as coisas aconteçam, mas não abro mão do realismo. Posso mudar de gênero, mas não do estilo de escrever. Porque, para o bem e para o mal, o verdadeiro escritor escreve sobre a realidade que sofreu e de que se alimentou, embora, às vezes, possa fazê-lo sobre histórias distantes no tempo e no espaço. Então, se um dia eu me envolver com o gênero fantástico, irei manter o realismo, pois, para mim, o escritor de nosso tempo deve se submergir na realidade, não importando depois como essa realidade irá ser contada.
Por isso, procuro desenvolver uma literatura realista, e isso não tira o mérito das obras fantásticas, pelo contrário, sou a favor também, contanto que tenha pontos de contato com a realidade, no sentido do sentimento, do dilema humano. Se as questões humanas estão sendo abordadas, não importa o gênero da obra, o que vale é o fato subjetivo e objetivo, pois para que o livro seja significativo para o leitor, é preciso que a realidade permeei a obra.

Hoje em dia autoconhecimento é um termo que remete, muitas vezes, a livros orientadores, de um caráter quase técnico. No seu caso, é proposta uma análise dentro de uma trama. Como você avalia a reflexão nesse tipo de obra?
Nessa obra não há necessariamente uma proposta de uma análise dentro de uma trama, mas sim a visão que o personagem tem do mundo e que depois é desmerecida ou não é a única forma de ser entendido. No livro “Desafios de uma mente” não há ninguém, nenhum tipo de autor, como nos livros de orientadores, resolvendo os seus problemas. Pelo contrário, há nela uma vida intrigante para que o leitor possa resolvê-la de acordo com a sua capacidade, em vez de receber algo pronto. A literatura não é um padre, não está lá para ditar sua vida. Até porque a vida é mais complexa que tais orientações.

Um dos papeis da literatura é levar o leitor para uma vida que ele jamais viveu (ou se viveu, apresentá-la com outro aspecto) e assim torna-lo mais conhecedor.
Sobre a questão técnica, tem uma frase de Ernesto Sabato que diz mais ou menos assim: “A literatura não faz filosofia, ela vive a filosofia”.

Na abordagem de conflitos humanos como solidão, paranoia, angústia, entre outros, rolou mais pesquisa com profissionais, outros livros, amigos, conhecimento próprio? Ou quem sabe um equilíbrio de ambos?
Por mais que possamos adquirir conhecimentos em livros e amigos, lá no fundo, eles remetem uma questão só nossa. Pois, vivemos em dois mundos, o mundo real e o mundo que podemos ver, perceber, e este é o que fica em nós, internalizado. Esse mundo interno não são as lembranças de experiências reais; são o depósito introjetado dessas experiências, mas modificado pelo processo de introjeção. Então, a representação da realidade, seja por amigos e livros, é permeada pela existência de fantasias subjetivas. Assim, a abordagem desses conflitos, quando vou passar para o papel, é um conhecimento de certa forma adquirido, por livros ou pela experiência de vida, porém é modificado de acordo com a minha capacidade e paixões.
A literatura, como a filosofia, a psicanálise e a ciência, é um corpo de conhecimento e então ela precisa manter na sua história uma descrição, uma indagação, um exame do drama do homem, de sua condição, de sua existência e nada melhor que a percepção do próprio autor na obra.
Mesmo que um livro fale de vampiros, de monstros ou simplesmente de humanos precisa de uma conexão com o íntimo do homem e quando digo o homem, é o próprio autor, pois a literatura é a testemunha de uma vida. Dessa forma, meus personagens não são jamais meros efeitos de minhas ideias, ou simples conhecimento adquirido, mas antes a manifestação carnais dessas ideias. Prendo-me numa questão metafísica, pois por mais que um romance levante questões como os problemas familiares e econômicos, que é o caso da obra “Desafios de uma mente”, sociais e políticos, em que os homens se debatem, estão sempre os problemas últimos da existência: a angústia, o desejo, a perplexidade e o temor da morte, o anseio de eternidade, a revolta diante do absurdo da existência.
Tem uma frase de François René que diz: “Estamos convencidos de que os grandes escritores colocaram a sua própria história nas suas obras. Pinta-se bem apenas o próprio coração, atribuindo-o a um outro."

Você atribui aos romances dos séculos XX e XXI uma nova abordagem humana, filosófica, existencial, científica. Como enxerga essa tendência hoje em dia? Acha que enfraqueceu, fortaleceu, ou segue para uma nova reestrutura ainda mais profunda?
Eu acredito que o romance contemporâneo que leva uma nova abordagem humana não enfraqueceu, ela continua e se fortalece. Podemos ver grandes obras de Ernesto Sabato e José Saramago, este o primeiro escritor de língua portuguesa a ganhar o prêmio Nobel de Literatura, por exemplo, como também a obra “As Virgens Suicidas” do escritor Jeffrey Eugenides, vencedor do Pulitzer Prize.
O que acontece é que, paralelamente as essas obras, surgiram várias outras, Best-seller, como o Crepúsculo. Informo que não tenho nada contra a elas, pois o que quero dizer é que os personagens dessas narrações somente veem e sentem. Mas o homem é algo mais do que um sujeito sensorial, é um animal que salta do caos dos sentidos para a ordem dos objetos ideias, onde se perde no inconsciente de sua solidão ou comunidade, de sua finitude ou mortalidade, da ausência ou presencia de Deus.
Assim, com essa recente explosão vampiresca deu a impressão que obras como dos escritores que acabei de citar estão perdendo força, o que não estão. Elas continuam sendo bastante vendidas e encontramos até Best-Seller também nesse estilo. Há uma explosão passageira como há um silêncio eterno.
Tem quem diga que a literatura está em crise, está desumanizada, que perdeu a ligação com o íntimo mais profundo do ser humano, mas essa afirmação é verdadeira em partes, pois existem muito escritores humanizados. O que está ocorrendo também é que o público perdeu a sua essência, deixaram de serem homens para se tornarem objetos fabricados em série, moldados por uma educação padronizada, sacudidas pelas notícias da mídia, coisificaram o homem. Entretanto o verdadeiro escritor continua lá e graças a sua incapacidade de adaptação, a sua loucura conservou contraditoriamente os atributos mais preciosos do ser humano.
O que está em crise não é a literatura, ou a arte em geral, mas o conceito burguês caduco da “realidade”, a crença ingênua na realidade externa.

"Desafios de uma mente" mergulha na essência do ser humano com muita propriedade. Mesmo relatando a história de um jovem, consegue deixar ensinamentos e levar à reflexões pessoas de outras faixas etárias. Foi uma preocupação desde o início manter essa linha, ou a história já dava sinais de que alcançaria este fim?
A verdadeira literatura é a que representa a angústia do homem pós-moderno. Então quando uma obra conta uma história, seja ela qual for, a história em si não é tão importante, mas sim o dilema humano do personagem e por isso, mesmo que o livro relate um caso de um jovem, não impede que deixe ensinamentos e leve à reflexões pessoas de outras faixas etárias, pois constelam sentimentos profundos de apelo universal. E é exatamente por esse motivo que a arte nos sensibiliza de forma tão arrebatadora, pois ela está repleta de significados e experiências comuns a todos. Quem de nós nunca foi um Lucas na vida, seja de forma mais intensa ou mais branda, de uma configuração ou de outra? É isso que faz a obra “Desafios de uma mente”.

Você é um autor que genialmente já passou pela poesia, novela, romance, entre outros. Diante desta vasta experiência, qual a sua visão hoje a respeito da visão da sociedade brasileira no que diz respeito à importância da literatura?
Quando também se trata de literatura, a rapidez dos modismos, tendo por objetivo o consumo desenfreado, o lucro, passou a reinar na sociedade brasileira. É claro que não tenho nada contra um escritor receber dinheiro por sua obra. Mas escrever só para ganhar dinheiro é uma abominação. Eu, por exemplo, escrevo, mas não faço dela a minha fonte de renda. Se eu lucrar financeiramente com isso, tudo bem, mas caso isso não ocorra, não irei prostituir a literatura. Cursei duas graduações, a primeira foi na área de tecnologia e estou cursando a segunda na área médica, e isso não me impede de escrever; isso me impede de prejudicar a arte, pois não preciso destruí-la para ter dinheiro.
Hoje só querem escrever livros da moda, livros que possam se tornar Best-seller. Só que essa situação vai além de um prejuízo artístico, ela toca no ponto da vida humana, tanto o seu aspecto social como individual. Digo isso porque a literatura, como toda arte, é uma forma de tornar a experiência em algo expressivo, porque a linguagem é o único recurso que o ser humano tem e tudo aquilo que não é verbalizado, sem significado, nos domina, já que há aquelas questões obscuras, confusa, dentro de você e que você não sabe o que é. Assim, quando há uma expressão a coisa melhora.
Dessa forma, uma sociedade que não tem um número o suficiente de escritores, poetas é uma sociedade incapaz de verbalizar a sua experiência mais real, assim a vida se torna incompreensível e o falar se torna numa repetição estereotipada. A experiência coletiva se torna mais complicada, mais difícil. Antes a literatura tinha um poder de mudar alguma coisa. Hoje, muito pouco ela interfere no imaginário social. Em meados do século 19, com escritores como Tolstói, Dostoiévski, etc., a literatura estava no centro da arena dos grandes temas, da condição humana daquela época, daquele tempo. Tiraram dela aquela importância, que se confundia com a filosofia, a sociologia, com grandes visões de mundo.
Repito que não tenho nada contra a literatura de puro entretenimento, até porque muitos começaram a gosta de ler através dela, é um fato. O problema é que essa linha de entretenimento existe em detrimento da verdadeira literatura, a qual na vida pessoal, no ponto de vista do indivíduo, modifica profundamente. Ela coloca a nossa condição num patamar diferenciado.
Mas nem tudo está perdido, estamos numa geração onde os escritores têm mais condições de publicar os seus livros, já que há várias editoras, de vários gostos, dando oportunidades para novos escritores. Existem cada vez mais blogs na internet, onde as pessoas podem divulgar os seus escritos e ser lido. Temos novos escritores, na literatura brasileira, se destacando e até conquistando grandes editoras. Acho que essa área nunca foi tão aquecida como está sendo hoje e isso é muito bom. Espero que continue surgindo mais escritores, para o bem da nossa literatura.
O problema é que apesar dessa explosão de escritores, diferente da literatura brasileira dos anos 60, não há certas referências marcantes, como foi Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Nós estamos numa fase agitada, não há um perfil marcante que possibilite dizer em que direção está indo a nossa literatura. Mas, é natural, estamos numa fase de transição.


Desafios de uma mente

A obra conta a história real de Lucas Santos, um jovem estudante de Psicanálise que sonhava em cursar também a faculdade de Medicina.
Lucas fica arrasado quando sua mãe, Kátia Fernandes, se separa de seu padrasto, surgindo, a partir daí, dificuldades financeiras para que pudesse completar seus estudos.
Este fato – entre outros – provoca, ainda, turbulências na relação com sua namorada, Carolina Almeida.
Ele, então, procura superar determinados problemas e percebe o quê poderia não só modificar o seu destino, mas também a sua mente, fazendo com que as coisas começassem a melhorar em sua vida. Essa percepção se dá com a ajuda de seu irmão, Thiago Santos. Porém, havia ainda muitos desafios pela frente.
Lucas é sinônimo de luta pela realização de seus sonhos (sociais, amorosos e pessoais) por meio das experiências pelas quais passa na vida.
Desafios de uma mente é uma história emocionante, que retrata os conflitos emocionais pelos quais passam muitos jovens (e outros nem tão jovens assim).

Editora MultiFoco
Ano de lançamento: 2011
Como adquirir: pelo site da editora MultiFoco: http://www.editoramultifoco.com.br/ ou com o autor, através do site: http://www.marcelovinicius.com/

Luís Delgado