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domingo, 26 de dezembro de 2010

Joana Cabral

No Literária 15 de hoje recebo minha grande amiga Joana Cabral. Escritora premiada e que dialoga com a arte em níveis e vertentes variadas, dona de uma narrativa intensa, poderia dizer avassaladora, como em uma correnteza somos literalmente arrastados por palavras carregadas de emoções e tramas divinamente entrelaçadas.

Destaca-se, entre tantos atributos, sua capacidade de tornar seus contos sedutores não importando se são suaves ou fortes. Como quem hipnotiza uma tempestade, nos drena para dentro de seu mundo, ou seus mundos, e torna a realidade tão brilhante sem com isso torná-la superficial.

Reunindo toda sua paixão pela Literatura, tanto clássica quanto contemporânea, Joana nos apresenta todo seu talento, sua visão profunda, seu ar envolvente, sua humanidade revelada no carisma e nas múltiplas dimensões dos personagens, com pensamentos e sentimentos que passeiam pelos extremos, ornados na estética e na inteligência de uma grande escritora, mulher à frente de seu tempo, sonhadora e realista, mestra de seu próprio caminho, conhecida e admirada.

Contista e roteirista de teatro. Nasceu em Juiz de Fora (MG) e foi criada em Brasília, onde atuou como empresária por quinze anos. Mas a leitora compulsiva dos clássicos e da moderna ficção nacional e estrangeira, falou mais alto. Joana deixou os negócios e migrou para a carreira literária. Formou-se em Letras e dois anos depois, já radicada no Rio de Janeiro, recebeu o prêmio “Osman Lins de Contos – 2005”. “Fragmentos do Desencontro” é o primeiro livro solo da autora, que já foi publicada na “IV Antologia de Contos de Autores Contemporâneos”. Adaptou para o teatro o livro infantil “O Capitão e a Sereia”, de “André Neves”.

Em "Fragmentos do Desencontro" percebemos a realidade humana revestida de belíssimos traços poéticos, mas sem perder sua essência de cotidiano. Criar esse convívio de dualidades é um traço marcante do seu estilo, ou foi uma construção própria para esta obra?
É, com certeza, meu estilo. Inverter a ordem natural das coisas é um tema recorrente em meus pensamentos e inevitavelmente migra para minha literatura, também. "Fragmentos do Desencontro" não foi um projeto pré determinado, ele é o resultado de uma seleção rigorosa dos contos escritos no período de 2005 a 2009. Foi durante o processo de seleção que descobri o fio condutor que transpassava todos os contos, e era exatamente essa quebra da rotina do dia a dia, do lugar comum, do prosaico, a partir de um determinado evento dentro da narrativa. O resultado me surpreendeu, porque não havia visualizado, racionalizado essa tendência até o momento em que reuni o material. Não sei se meu próximo livro trara essa caracteristica. É uma incógnita! É preciso permitir-se a surpresa, o imponderável não é da ordem das deliberações racionais. Gradativamente, minhas narrativas adquirem autonomia própria, formando conjuntos de relatos que apontam para vetores particulares a serem desvendados. Nem "tão esotéricamente assim" creio que é algo, simplesmente inerente aos processos de criação literaria.

Roteiros de teatro nos remetem a uma linguagem onde há um apelo visual muito grande, os personagens se expressam, agem muito intensamente na parte física. A Literatura, reinado de letras e imaginação, dista um pouco desse mundo. Em "Fragmentos do Desencontro" houve uma influência técnica, ou contribuição artística de sua experiência teatral?
Desembarquei no mundo dramaturgia quase por acaso (embora acredite que nada seja casual!), fui convidada para adaptar um livro infantil "O Capitão e a Sereia", do escritor e ilustrador, André Neves. Apesar da hesitação inicial, o projeto ficou belíssimo e foi uma diversão dar vida e voz ao Capitão Marinho e sua trupe. Como pertenço a uma vertente estritamente narrativa, encontrei certa resitência ao escrever roteiros. No teatro, todas as informações que você deseja para o público, tem de estar nos diálogos, recurso que nunca ou quase nunca utilizava em minhas narrativas. Investi em cursos e fiz oficinas de roteiro. Estudei com a roteirista e escritora, Regiana Antonini, na "Cia. de Teatro Contemporâneo". Acredito que o exercício da dramaturgia agregou recursos à minha escrita, um fôlego que arejou o "andar por dentro de meus contos". O percurso técnico foi inverso, levei mais para o conto a experiência com o texto teatral, do que o contrário.

"Fragmentos do Desencontro" é uma coletânea de contos que, entre outras características, se unem pela essência do desencontro, uma construção engenhosa onde o final é sempre surpreendente. O que mais os leitores podem esperar da obra além dessa essência?
Apesar de sempre estarmos na expectativa de finais surpreendentes, visualizo e elaboro bem mais, o "vazio". Nos contos, em sua maioria, o desfecho apenas se insinua, pode ser que o tema seja tratado mais adiante ou não. A intenção é, justamente, não dar uma solução, um desenlace previsível, lógico, para o impasse proposto, mas sim, abrir para uma reflexão ou mesmo uma interrogação sem resposta aparente. Algo assim como tirar o chão. Te deixar no vazio e te obrigar a pensar... e se... e se... valorizando a sensibilidade e capacidade de discernimento do leitor e/ou lhe demandando desfechos proprios, lhe dando chances de extrair suas proprias conclusões do que lhe é apresentado literariamente.

Mulheres de Opinião era um site onde você exercia uma linguagem jornalística marcante. Nessa linguagem marcada pela imparcialidade , existem limites a serem respeitados pelo toque feminino?
Com a migração de meus trabalhos para o novo projeto em parceria com a escritora Eliane Raye, lançaremos no dia 15 de janeiro próximo um novo espaço para divulgação de autores brasileiros emergentes. Será o site "Tabletes Culturais", continuarei meu trabalho de apresentação da produção literária em nosso país, do novo autor, do novo profissional que está se destacando. Claro que meu olhar feminino estará sempre presente, com muito mais liberdade de expressão, acredito.

Em Mulheres de Opinião você escrevia juntamente com outras duas escritoras, no ritmo intenso da internet, sobre variados assuntos. Mais que uma ampliação de concepção artística, você diria que essa experiência amadureceu também seu olhar sobre o universo feminino nas buscas por espaço na sociedade?
Não vejo tão nitidamente um amadurecimento. Carregar o nome "Mulheres" te traz uma responsabilidade enorme com a mulher que você carrega dentro de você, com a mulher que você é. Isso senti muito forte com o trabalho que desenvolvi no site. Não me sinto como uma mulher que está desbravando um espaço na sociedade, acho que vieram outras "militantes" antes de mim, abrindo uma avenida extensa para nós . Vejo mulheres de destacando em todos os setores, dirigindo ônibus, que é um trabalho que considero extremamente duro; administrando empresas e até sustentando o lar, mas acho que a humanidade ainda tem de evoluir muito para não esbarrar em conceitos equivocados, por exemplo, se a mulher é bem sucedida profissionalmente, ela não tem perdão, não vai ter direito a nenhum momento de fragilidade.

Como roteirista você adaptou uma obra da Literatura Infantil brilhantemente. Como foi essa transposição entre essas duas vertentes artísticas? Esse contato profundo com Literatura Infantil mexeu com seu método de criação posteriormente?
Nunca havia escrito para o público infantil, mas a proposta do projeto era intensamente poética, com abundancia de imagens belas, remetiam-me ao poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Melo Neto. A peça apresenta a saga de uma criança que, de tanto escutar as histórias de seu pai, torna-se uma contadora de histórias e vai de encontro ao mar. O lirismo transbordou desse trabalho e o resultado foi maravilhoso. O que de melhor acrescentei à minha escrita, com o texto para o teatro foi a apropriação do diálogo.

Você está constantemente em contato com autores que vão surgindo. Sendo uma apaixonada pela Literatura Clássica que dialoga com as novidades, com que olhos você enxerga essa renovação nas Letras Brasileiras?
Sou uma constante pesquisadora de blogs literários, tendo encontrado muita coisa boa, o que até me intriga, porque não vejo tanta gente estourando no mercado editorial aqui no Brasil! Vejo uma tendência à mesmice dos romances "enlatados" que insistem em brilhar nas preteleiras das livrarias. Nunca se escreveu tanto em nosso país, e nunca se publicou tanto, o que está faltando é consolidar essa ponte entre os escritores e leitores... desconstruir essa noção introjetada de que literatura boa vem de fora. Claro que a produção americana é boa, como a francesa e a argentina, mas é urgente democratizar a literatura e acabar com essa relação viciosa de oferta e procura de livros "produtos".


Fragmentos do Desencontro

A obra é composta por 23 contos, que têm como ponto em comum a abordagem de fatos do dia a dia por uma perspectiva inusitada. “Meus contos “desenganam” o leitor; o final feliz nem sempre acontece no desenlace dos pequenos dramas do quotidiano”, relembra a ficcionista.
”Minha escrita é o resultado do que recolho em bruto, no ir e vir à escola de minha filha, de um percurso eventual de metrô ou de ônibus. Geralmente, quando sento ao computador, já tenho toda a narrativa pronta”, revela a autora, que, também, investiga registros em fotos do quotidiano publicados na imprensa, como fontes de estímulo à sua escrita.


Editora Editora Pedro e João Editores (SP)
Páginas: 116
Preço: R$ 19,90

Luís Delgado