Um novo conceito em Blog Literário!

Espaço dedicado à divulgação de autores brasileiros, além de matérias e dicas sobre Literatura.
Contato: literaria15@gmail.com

Busca do Literária 15

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Nelson Magrini

No Literária 15 de hoje recebo meu grande amigo Nelson Magrini. Um autor cuja narrativa pode levá-lo do terror ao humor dentro de uma mesma obra de um modo impressionante. Nelson já passou por diferentes editoras, publicou suas próprias obras e participou de antologias também. Tem uma bagagem incrível, muito a ensinar e a encantar com suas histórias tão marcantes.

A maioria de seus livros tem como pano de fundo o terror, mas como disse anteriormente, ele não é autor de uma tônica apenas, em seu mais recente trabalho, Os Guardiões do Tempo, elenos leva a uma viagem através de uma trama futurista, com ares científicos, doses de humor, sempre com muita propriedade em relação ao que narra.

Dentro da Literatura Fantástica, ou do gênero chamado Realidade Fantástica, Nelson é um nome forte, com marcante presença em projetos pela web, blogs, parcerias, entre outros. Tendo participado de Bienais e dialogando sempre com muitos autores hoje conheceremos um pouco mais sobre obras e visões sobre a Literatura Contemporânea desse grande autor.

Em sua obra "Anjo, A face do Mal", você propõe de um modo empolgante uma análise sobre a contestação das crenças. Até que ponto você esboçou sua opinião, totalmente, ou apenas quis propor uma profunda reflexão?
Olá, Luís. Primeiramente, é um prazer está aqui para esta entrevista. Em relação à pergunta, como não sou dado a crenças, crendices, lendas, etc, posso afirmar que a contestação que aparece na trama reflete minha opinião pessoal. Todavia, uma coisa leva à outra, ou seja, como sempre que possível, gosto de fazer meus leitores pensarem, e com o exposto na obra, de certo modo, abro portas para que cada um faça uma reflexão sobre suas crenças pessoais, as crenças difundidas pelo mundo como verdades intocáveis e imutáveis, e que para milhares de pessoas pelo planeta, regem suas vidas. Curiosamente, quase ninguém se dá conta da influência que tais escritos, histórias, mitos, atos de fé provocam em uma esmagadora parcela da humanidade, e ainda assim, por sua própria natureza, atribuída de dogma sagrado, não é admitida nenhuma contestação. Isso, para mim, é a antítese da evolução, uma verdadeira estagnação intelectual e cultural.
Apesar de ter minha opinião própria quanto às religiões, não deixo de admitir que qualquer um tem o direito de acreditar naquilo que queira. E digo mais, se aquilo em que as pessoas acreditam faz bem a elas, que continuem a acreditar, isso não é o problema. Isso é o que se chama da verdade de cada um, mas para aqui. A verdade de cada um é tão somente isso; ela é sagrada para o indivíduo que a tem, mas não necessariamente para os demais, alias, para muitos, nem verdade é.
O mal é querer impor uma verdade como absoluta e que todos devem aceitar sem contestação. E isso vale não só para crenças, mas para qualquer tipo de opinião pessoal.
Talvez, minha vontade de fazer meus leitores contestarem, raciocinarem vem exatamente da falta desse senso crítico, cada vez mais agudo no mundo. Apesar de estarmos no século 21, no início de um novo milênio, e com tantos feitos magníficos, em todas as áreas do conhecimento humano, alcançado pela Ciência, vivemos, mais do que nunca, em uma era de “achismos”, onde é mais fácil achar e fim; escutar o que alguém disse e fim, do que procurar e pesquisar o conhecimento.
Se meus livros, sempre que possível e dentro do contexto da obra, puderem contribuir para que as pessoas, cada vez mais, contestem as “verdades gratuitas”, ficarei muito satisfeito. Mas deixo claro que, minha primeira intenção é entreter.

Em Amor Vampiro, você e outros autores se debruçaram sobre uma estrutura de contos de terror magnífica, onde seu conto Isabella recebeu o apelo dos leitores para se tornar um livro. O conto foi escrito para antologia especificamente ou ele já existia? E como foi receber esse carinho do seu público?
A recepção de Isabella foi extremamente gratificante. Eu mesmo me apaixonei pela personagem e tinha idéia de aproveitá-la de modo mais amplo. Com o tempo, muitos leitores com quem eu conversava, invariavelmente acabavam me dizendo que eu deveria fazer um romance solo para Isabella e, com o tempo, comecei a amadurecer a idéia. Embora no momento, tenho de me dedicar a outros projetos, Isabella está longe de ser esquecida e espero em breve começar a desenvolver seu livro, do qual já tenho o prólogo e parte do início já escrito.
Em relação à personagem e ao conto, ambos foram criados para a antologia e é curiosa a forma como tudo se desenvolveu. Cada autor apenas sabia do tema, Amor Vampiro, do número limite de páginas, e de que seria um livro para adultos, portanto, cenas mais ousadas estavam liberadas. E a editora não nos deixou ver os contos dos demais, somente após o livro publicado.
Independente disso, eu imaginava como seriam as tais cenas ousadas e picantes dos demais, e não errei, como pude constatar. Por meu lado, tendo isso em mente, queria algo mais ousado que os doutros, mas sem cair na baixaria explícita. Em pouco tempo, cheguei aos parâmetros que desejava, e aí, a tarefa agora era como montar tudo isso.
Assim que comecei a escrever, percebi que estava tudo errado. O desenvolvimento da trama, o tom da linguagem e mesmo, a minha escrita. O curioso é como tudo se encaixou de vez. A trama começa da maneira mais direta possível e de cara, um mistério. O tom se torna como uma fotografia com nuanças góticas, e a escrita, quase por si só, toma essa imagem para si. O conto traz uma maneira de escrever que eu nunca havia tido antes, e faz um harmônico com as ações e mesmo, as palavras e frases escolhidas.
Em relação ao erotismo mais explícito, ele aparece apenas ao final. Não queria algo devasso, sexo por sexo. Como sempre, para mim, tem de estar no contexto da trama e, em Isabella, é o cume de uma esperança e redenção.
A ousadia está lá para que puder perceber, e melhor ainda, não é gratuita. Isabella é, e continua sendo uma vampira; não teria sentido ela se privar de experimentar o que fosse por pudor. Ela até pode não gostar de variações sexuais, mas seria, então a opinião dela, nunca pudor ou falso pudor.
Por hora não sei se seu livro solo terá tal carga sensual e erótica, mas em se tratando de Isabella, desconfio que tenho bem pouco controle sobre o que ela deseja ou sente. Somente quando me sentar e escrever é que irei saber. Isabella é assim, mistériosa do começo ao fim.

Relâmpagos de Sangue é um terror com uma ênfase maior no psicológico dos personagens? O enxerga como um livro onde você foca mais nesse aspecto do que na ação, diferentemente de Os Guardiões do Tempo?
Relâmpagos de Sangue é, sem dúvida, meu livro mais assustador, comprovado por seus leitores. Ele não deixa de ter ação, quem o leu sabe bem disso, mas o peso dos sentimentos e conflitos pelos quais passam os personagens centrais e alguns outros, dão a tônica, tornando-o extremamente denso, angustiante e, por que não, de dar medo. Aquele leitor que costuma entrar dentro das histórias que lê, em Relâmpagos de Sangue, sem dúvida passará a vivenciar o drama experimentado por seus personagens, e é o que exatamente dá a conectividade entre a leitura e os possíveis sustos ou medos que a trama acarreta. Seguramente, nesse sentido, posso dizer que ele é o oposto de Os Guardiões do Tempo que, apesar de trazer meus elementos de mistério, suspense e, neste caso, uma pitada de terror, é uma leitura bem mais descontraída, com muita aventura e humor.
Curiosamente, gosto da tônica de ambos, porém tenho uma tendência maior a escrever livros no estilo de Relâmpagos de Sangue.

O Portador da Luz muitaz vezes expõe o social de uma maneira bem real. Até onde você acredita no poder do gênero "fantástico" de transformar a realidade pela ficção através da leitura?
A idéia de O Portador da Luz nasceu para ser um livro. Depois, foi transformado em conto, para uma coletânea que nunca aconteceu. Quando da inauguração do Fontes da Ficção, onde os mantenedores se revezariam em postar textos, resolvi desenvolver um pouco mais e criar uma minissérie, para publicá-la em partes, e foram dez partes.
Sem dúvida, pela tônica da história, procurei apresentar o social de maneira bem realista, pois isso daria credibilidade à trama, e aqui entra a sua questão.
Claro que eu acho que o fantástico tem força de transformar a realidade, desde que ele consiga passar uma crítica, ou como mencionei antes, consiga fazer o leitor questionar algo, desde que tal se encaixe no texto. Isso é importante pois, caso contrário, seria apenas panfletagem, algo que não resolve nada.
Vemos no Brasil, e mesmo no mundo, milhões e milhões de pessoas dando verdadeiras fortunas mensalmente a grupos cada vez mais radicais e fundamentalistas. Do que são capazes tais pessoas? Até onde elas iriam em suas convicções e na crença sagrada de que todos deveriam se curvar a elas? O Portador da Luz apenas eleva tais questões um patamar acima. Loucos existem em todos os lugares, não necessariamente apenas entre políticos e governantes, como visto ao longo da História. Alguém seria capaz de antecipar o que tais pessoas poderiam fazer? Talvez a ficção acabe sendo um alerta para fatos que, esperamos, jamais aconteçam.

Os Guardiões do Tempo possui incríveis doses de humor. Foi uma aposta nova sua, ou já fazia parte do seu estilo literário inclusive em obras de terror?
Minha idéia sempre foi escrever mistério, suspense e terror. O que poucos sabem, é que Os Guardiões do Tempo foi meu segundo livro escrito, imediatamente antes de ANJO A Face do Mal, meu primeiro publicado. Nessa época, acabei por enveredar por dois livros mais voltado ao público infanto-juvenil, embora procurando agradar a um público de todas as idades. O humor veio de maneira natural, se mesclando à aventura e, óbvio, ao mistério e suspense.
Curiosamente, em ANJO A Face do Mal há um capítulo onde duas entidades se encontram no Inferno, que acabou sendo muito engraçado. Isso não foi planejado, tipo, “ok, agora vou colocar um pouco de humor na história”. Não, se deu de maneira espontânea. Analisando depois, creio que tal se deveu às personalidades dos dois personagens, birrentos e brigões, embora extremamente simpáticos em si.
Uma leitora, que já havia lido ANJO, e em seguida, leu Relâmpagos de Sangue, viu um certo humor, logo no comecinho da trama, nas agruras do personagem Ademir, às volta com uma tremenda enxaqueca e um congestionamento monstro no estacionamento do prédio o qual ele comandava. Eu só percebi este lado, após o comentário dela, mas se de fato é algum tipo de humor, também foi totalmente involuntário.
A princípio, não tenho essa proposta em mente, salvo para livros similares a Os Guardiões do Tempo. Contudo, creio que somente escrevendo para ver se pinta algum humor ao redor do mistério e terror.

Você já havia experimentado escrever tramas com passagens futuristas como em Os Guardiões do Tempo? Como você construiu sua visão de futuro para essa obra? Nunca havia escrito nada no estilo, embora sempre fui um devorador de livros de ficção-científica, o que certamente me auxiliou. Como sempre digo, um bom escritor é, antes de tudo, um leitor compulsivo.
Em relação a minha visão de futuro, creio que é um todo que foi crescendo desde os tempos que comecei com a ficção-científica, sendo influenciado por muitos e muitos cenários. Obviamente, essa visão não é única ou estanque, ou seja, posso criar um futuro devastador, se assim algum novo projeto o exigir, afinal, o futuro é aberto a inúmeras possibilidades.
Um detalhe que me lembro é que, na época em que escrevia Os Guardiões do Tempo, aconteceram os atentados de 11 de setembro, em Nova York, e o absurdo daquela situação me influenciou a mostrar um futuro sem dogmatismos ou fanatismo religioso. Deixei claro que as crenças ainda existiam, algo que eu não precisava fazer, mas preferi mantê-las, deixando-as, apenas, a nível pessoal, ou seja, desaparece o fundamentalismo e a intolerância. De resto, todo o demais construído foi obra de minha imaginação, como se deu com a unificação de territórios, economia, línguas, etc.
Como conheço bem a minha imaginação, possivelmente, em um novo projeto dentro desse tipo de trama, devo mostrar um futuro bastante diferente, vamos ver.

A internet possibilitou ao ser humano criar espaços de divulgação de alcances inimagináveis antes, permitindo a muitos serem conhecidos, e derrubando muitos grupos seletos. Seus livros têm uma forte presença em blogs e mídias sociais. Como você vê e interage com essa revolução da nossa época?
Eu vejo com os melhores olhos possíveis. Hoje, é praticamente impossível de se pensar na vida moderna sem internet. Antes mesmo de falar de divulgação, a internet traz conhecimento farto de maneira fácil. Seu grande problema, muitas vezes, é como o usuário faz para filtrar a qualidade da informação. Infelizmente, em meio a conhecimento farto, há montanhas de asneiras, também.
Deixando isso de lado, a internet muito facilitou as pesquisas necessárias a qualquer autor. É por demais fácil acessar dezenas de informações sobre um país, sobre determinada polícia, escola, museu, ou o que seja. Os mais variados cenários e estruturas estão a um clic.
E se isso ajuda muito na composição de obras, na divulgação, nem se fale. É um meio fácil, onde qualquer autor pode se fazer conhecer, bem como ao seu trabalho. Na maioria das vezes, para autores iniciantes, a internet possibilita seu primeiro contato com os leitores. E não deixa de ser diferente com autores já mais conhecidos; este é um meio de comunicação indispensável a qualquer um.
De minha parte, além de meu blog, NELSON MAGRINI – OFICIAL ®, http://nmagrini.blogspot.com/ , onde sempre posto fotos de eventos que participo, também sou criado e mantenedor, juntamente com os escritores J. Modesto e James Andrade, do Fontes da Ficção, www.fontesdaficcao.com.br , o qual está no aguardo, por hora, pois irá se transformar em um dos maiores portais de Literatura Fantástica do país.
Fora isso, participo de redes sociais como o Orkut, http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=6637510294845515276&rl=t ; o Skoob, http://www.skoob.com.br/usuario/22901 , onde conheci muitos leitores, principalmente em encontros que organizamos; e o Twitter, https://twitter.com/NelsonMagrini , embora nem sempre me sobre tempo para visitar regularmente todos eles.
Mas internet é isso, estar conectado a cada segundo com os leitores, sempre que possível.

Para finalizar, Luís, mais uma vez agradeço a oportunidade de estar aqui, junto a todos que nos acompanham. Para quem quiser manter contato, basta me escrever em nelson_magrini@yahoo.com.br .

Obrigado e abraços!


Os Guardiões do Tempo

Diferente de meus demais trabalhos, este é uma fantasia de ficção voltada para todas as idades, com muita aventura e uma boa dose de humor. Dois amigos de 13 anos, Duda e Rogério, e a irmão de Duda, Ciça, de 12 anos, embarcam em uma ventura através do Tempo e do Espaço, viajando a mais de 1.600 anos no futuro. Tendo os lugares mais exóticos da Via Láctea por fundo, os garotos têm de solucionar um mistério, encontrar uma máquina singular, escondida por seu inventor, através de pistas espalhadas pela galáxia. Resolver tal enigma é a única esperança para salvar a Terra e todo o seu Império Galáctico.
Apesar do público alvo abrangente, Os Guardiões do Tempo conta com os tradicionais elementos de mistério, suspense e, neste caso, uma pitada de terror na dose certa. Com leitura ágil e ritmo incessante, é garantia de boas horas de diversão.

Giz Editorial 2009
Os livros podem ser encontrados em livrarias reais ou virtuais. Além disso, o autor faz venda direta aos leitores, com exceção de Amor Vampiro, com direito a autógrafo e dedicatória. Os livros possuem descontos e são acrescidas as despesas de Correios. Interessados devem contatar via meu e-mail: nelson_magrini@yahoo.com.br
http://www.fontesdaficcao.com.br/
http://nmagrini.blogspot.com/

Luís Delgado