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domingo, 12 de setembro de 2010

Juliano Schiavo

Hoje no Literária 15 recebo meu grande amigo Juliano Schiavo. Um escritor de formação Jornalística que está em sua terceira obra, um livro construído com uma narrativa hipnotizadora, capaz de prender a atenção do leitor do início ao fim.

Juliano vem para mostrar o imenso talento dos escritores nacionais quanto o assunto é vampirismo. Com um personagem singular, ornado de uma mentalidade complexa, influenciado por obras literárias que marcaram a história da literatura, nos leva a uma trama onde as palavras encatam e a trama fala como que de nós mesmos imersos em uma realidade fantástica.

O Silêncio das Mariposas é uma obra profunda, um livro altamente recomendado, tanto para quem curte o gênero, quanto para quem ainda não se aventurou nessa área.

Uma obra de arte que revela um autor talentoso, sensível ao mundo a sua volta, observador do comportamento humano. Não é mais um livro sobre vampiros, é uma história diferente, onde a linearidade é inteligentemente arquitetada, onde o narrador consegue empolgar acima do bem e do mal, um clássico do vampirismo, uma prova de que a Literatura Brasileira dos nossos tempos é um gigante, que tem muito a oferecer. É conhecimento, reflexão e ao mesmo tempo entretenimento.

Um trecho de O Silêncio das Mariposas:
"E foi após mirar a objetiva numa Colombina e num Pierrô, que reparei naquele ser de beleza andrógena e fascinante, que parecia flutuar entre a massa inerte e descontrolada. Tinha uma delicadeza e uma desenvoltura tão sensuais, feito um anjo pisando por nuvens humanas. Trazia apenas um ramo de flores na orelha. Se todos se escondiam por baixo de máscaras e se emolduravam de faces límpidas e sem máculas, ele era o único realmente com o rosto nu, que deixava transparecer a realidade. No Baile de Máscaras, o seu rosto era a verdade sem mentiras, a beleza sem retoques, a morte com vida. Fitei aquele ser de beleza andrógena e ele fugiu aos meus olhares, como se brincasse de esconde-esconde. Enfiei-me pelo turbilhão de braços, pernas e máscaras; mergulhei com voracidade pelas ondas humanas, que exalavam um hálito de prazer e sensações doces e efêmeras. Mas não conseguia achar aquele rosto sem hipocrisias, sem maquiagens, que vagava delicadamente sobre a grama orvalhada e se dissimulava no meio das máscaras e das fitas de cetim, que rodopiavam com a brisa de julho. Meu estômago enchia-se de mariposas cinzentas e eu começava a ouvir o cãozinho negro e triste, ladrando ao meu lado, me acompanhando em uma busca insana por aquele ser. Fechava os olhos e garimpava, em minha memória fotográfica, aqueles traços firmes, decididos, emoldurados de uma pureza cativante, sedutora, sexual. Abria minhas pálpebras e via as mãos lívidas dele, que se confundiam com a multidão eriçada. Corria meus olhos e as mãos se perdiam, como se acenassem pela última vez, dando um adeus."

O Silêncio das Mariposas, em suas próprias palavras, não é uma grande história, não há grandes feitos, apenas relatos. Mas mesmo assim, você construiu uma trama incrível, com uma personagem singular que narra a própria trajetória de vida. O que você levou mais em conta na escolha dos trechos que seriam relatados?
A princípio, tive que pensar como pensaria e agiria a personagem diante da história ficcional. Criei uma espécie de personalidade paralela enquanto escrevia e, assim, buscava enxergar pela ótica da personagem. Não é uma tarefa fácil, pois é necessário se envolver com a criatura que você dá forma. É um processo de imersão, diria que até de sofrimento quando sua personagem tem características melancólicas.
Ao começar a escrever, deixava a criatividade fluir. O problema que me afligia era tentar transformar certas situações relatadas em algo mais próximo da realidade possível. Mesmo se tratando de um texto com elementos fantásticos, eu não podia fugir de algumas regras básicas da literatura, como: descrição de cenas, diálogos, subjetividade. Acredito que o próprio desenrolar da história foi fornecendo elementos para a escolha das situações a serem relatadas.

Uma personagem sem nome e sem sexo, que revela o sofrimento e os prazeres de sua vida em morte. Como foi a escolha destas características para uma personagem vampira, sendo estes, seres geralmente marcantes e bem definidos, apesar da excentricidade?
Estamos muito acostumados, nessa sociedade midiatizada, ao que no jornalismo denominamos como lead, ou seja, uma estrutura de produção textual. Nesta estrutura sempre temos que responder a seis questionamentos básicos para que as pessoas possam entender o que aconteceu. Estas questões são: O que? Quem? Quando? Onde? Como? Por quê? Quis quebrar um pouco esta regra, eliminando o Quem (nome da personagem), Quando (a data do acontecimento) e Onde (o lugar onde ocorreu tudo).
Isso causa um estranhamento no leitor, o que é comum – e é o que eu também buscava. A personagem do livro tanto pode ser do gênero masculino, quanto feminino. Não importa onde ela nasceu e viveu. O que importa são seus relatos introspectivos, suas sensações ante as incertezas da vida (ou morte em vida). Enfim, o que está em jogo no livro são as reflexões da criatura vampira, ou seja, sua busca por tentar entender porque a vida dela é daquele jeito e como ela chegou a vivenciar tudo aquilo.

Há um universo riquíssimo em O Silêncio das Mariposas, como você mesmo diz, um drama psicológico. O que você utilizou mais, pesquisa ou intuição?
Foi intuição. Ao entrar na alma da personagem, pensando como ela pensaria, foi-me permitido escrever por intuição – não minha, mas a da personagem que criei. Confesso que, no decorrer da escrita, cheguei a ter momentos de melancolia, pois somatizamos muitas coisas que pensamos. E como tive que criar essa personagem sociopata e, acima de tudo, melancólica, senti o impacto dos pensamentos dela.

Vampiros são seres sombrios, sedutores, que sempre mantiveram uma essência. Apesar das mudanças da sociedade, autores sempre respeitaram alguns limites para não fugirem dessa essência. Como foi escrever sobre um ser tão milenar em meio aos nossos dias? Você operou alguma modernização na estrutura da lenda?
É uma tarefa complicada, pois existe toda uma lenda que está no imaginário popular. Mas confesso que não me importo quando as leis são quebradas na literatura, principalmente na fantástica. Este tipo de escrita permite a adaptação da lenda, pois escrever fantasia é ir além das amarras vigentes. A criatividade existe justamente para isso: inovar. É arriscado, mas necessário.
Destaco que a caracterização de minhas personagens sofreu grande influência de Anne Rice. Os vampiros dela, tal como os meus, não saem à luz do sol, dormem em caixões e são destituídos de gênero. Ao se transformarem em vampiros, o que os fascina não é a sexualidade, mas pequenas nuances de suas vitimas, como beleza, inteligência, poder, juventude, entre outros.

Conte-nos sobre a experiência de trabalhar com outros dois autores como foi em seu livro-reportagem Sociedade do Lixo.
Sociedade do Lixo é um livro-reportagem que desenvolvi em 2008. Ele foi escrito em parceria com meus amigos jornalistas Analúcia Neves e Lucas Claro como trabalho de conclusão de curso. Há seis histórias reais, que fazem uso do jornalismo literário-interpretativo, desvendando uma sociedade que vive, muitas vezes, esquecida: a sociedade do lixo. O livro está disponível para download gratuito http://julianoschiavo.blogspot.com/2010/02/livro-reportagem-aborda-historias-de.html Recebi vários e-mails de professores que utilizaram o material com seus alunos em sala de aula. Isso é gratificante, pois vemos que nosso trabalho serve de complemento escolar.

Consternado é outra obra sua dirigida ao público adulto. Você pretende lançar-se em direção a outros públicos algum dia?
Consternado é um livretinho que escrevi quando cursava jornalismo. É uma trama repleta de palavras de baixo-calão, humor, reviravoltas. Trata-se da história de Adônis, um cara com Complexo de Édipo, que vive com sua meio-irmã, Suzana. Ele delira entre momentos de lucidez e loucura. O livretinho também está disponível para download no link http://julianoschiavo.blogspot.com/2010/03/consternado-juliano-schiavo.html
Quanto à questão de se lançar a outros públicos, diria que a vida é uma caixinha de surpresas. Participei de um concurso literário em 2008 com um livro infantil. Ele ficou em 10 lugar. A editora disse que tinha interesse na publicação. Mas ate agora, não se posicionou.

Tendo uma formação jornalística, como você vê a relação da mídia com a Literatura Brasileira Contemporânea?
O que vou dizer não é nada além do que as pessoas sabem: a mídia é movida por interesses – seja monetário, político, cultural. Se uma grande editora investe na publicidade de um livro, a editora pauta a mídia e surgem matérias sobre o livro. Os jornalistas, em grande parte dos casos, em razão de uma série de fatores (a começar pela própria produção acelerada de notícias e falta de tempo), acabam por usar só o press-release que as editoras mandam. Não oferecem a essência ao leitor, ou seja, não analisam os livros como deveriam analisar. Oferecem apenas a estética agradável, o bonito, o que é vendável, ou seja, o press-release. Não se aprofundam. E quem perder com isso? É o leitor. E um veículo acaba por pautar outro veículo de comunicação. Se um dá uma matéria sobre o livro tal, outro deve dar também. É a lógica “o que eu outro tem, temos que ter”. E tudo se torna homogêneo, pasteurizado, sem sabor. Tudo acaba por ficar igual.
Mas há esperanças. Sempre há. Não posso generalizar, pois existem veículos de comunicação, principalmente os alternativos e a imprensa do interior, que fazem um trabalho diferenciado e buscam passar a essência, não o embrulho, ao leitor.






O Silêncio das Mariposas


O retrato de uma alma vampira

Vampiros, sangue, sensualidade. Três palavras que se misturam no livro O Silêncio das Mariposas, de Juliano Schiavo (Editora Multifoco, 214 páginas). Para quem gosta de histórias de vampiros, mescladas com ponderações sobre a “vida em morte”, O Silêncio das Mariposas surge no cenário para confundir e, ao mesmo tempo, envolver o leitor. Não há uma grande história. Há apenas relatos. Relatos de uma vida vampira.
Escrito entre janeiro e julho de 2.009, o livro traz em suas páginas uma personagem sem nome e sem sexo, que revela o sofrimento e os prazeres de sua vida em morte. Transformada em vampiro, seus instintos e sensações se aguçam. Os relatos, que parecem ter sido sussurrados, oferecem ao leitor um retrospecto da infância da personagem até o desfecho de sua história.
“Trata-se de uma pessoa que não consegue amar ninguém e apresenta traços de sociopatia. Conquista a todos com seu sorriso, mas não se suporta mais. A vida, para ela, tornou-se um Baile de Máscaras, sendo necessário representar o tempo todo”, explica o autor.
De acordo com Schiavo, o título do livro O Silêncio das Mariposas é uma metáfora. As mariposas representam a ansiedade, pois vivem a se debater no estômago da personagem. Já o silêncio é o que tanto ela almeja: uma busca pelo fim de seu sofrimento tão latente.
“Nos relatos da personagem, há momentos de euforia e outros de depressão. Uma bipolaridade não tão acentuada, mas presente, que molda sua personalidade. A trama tem um tom psicológico, de conflito mental, envolvendo drama, aventura, medo, angústia, prazer, sensualidade e reflexão. E é a partir da transformação vampira que todos esses pontos se unem e fazem com que a personagem, sem nome e sem sexo, relate sua vida e destaque seus sabores e dissabores”.
A inspiração para a história veio de alguns livros. “O que mais me motivou a escrever foi O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, com seu Holden Caufield – um adolescente em busca de seu eu. Também não posso deixar de destacar o livro O Perfume, de Patrick Süskind, com seu Jean-Baptiste Grenouille, de personalidade sociopática. Para a criação das personagens vampiras, me inspirei em Entrevista com o Vampiro, de Anne Rice, com seu vampiro de Louis Pointe du Lac, que tem característica introspectiva”.


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Blog do livro "O Silêncio das Mariposas": http://www.osilenciodasmariposas.blogspot.com/
Download do livro-reportagem "Sociedade do Lixo": http://www.4shared.com/file/113313866/26b709ab/sociedade_do_lixo.html
Trailer do livro-reportagem "Sociedade do Lixo": http://www.youtube.com/watch?v=vDkRY9jL-ok


Luís Delgado