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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Wilson Gorj

Hoje eu recebo aqui no Literária 15, meu grane amigo Wilson Gorj. Um escritor de estilo inconfundível, alguém que conseguiu imprimir com qualidade uma marca na Literatura Brasileira. Um autor que acompanha as tendências do mundo das letras e cujo trabalho conseguiu uma grande repercussão na internet.

Wilson já possui duas obras incríveis, além de trabalhar ainda como colunista em diversos portais. Dono de uma agilidade irrepreensível, e de uma capacidade incrível de simplificar o cotidiano, seus textos levam à reflexão e ao lazer dentro de um equilíbrio fantástico. Um gênio da microficção, alguém que traz inovação e um talento que têm muito a ensinar.

Sua diversidade vai além dos textos, dos personagens, sua abordagem e narrativa são plurais, suas obras revelam nuances no seu posicionamento como autor e crítico, artista e debatedor, alguém que compreende a realidade e nos traz o que nela há de mais agradável.

Em 2007, publicou o livro Sem contos longos e participou da antologia Contos de algibeira, ambos constituídos de micronarrativas. Conta também com diversas participações em antologias e suplementos literários. Prometo ser breve é seu segundo livro. Na internet, pode ser lido em vários endereços, destacadamente no blogue O Muro & Outras Páginas (http://omuroeoutraspgs.blogspot.com/). É colunista dos jornais O Lince e Comunicação Regional.

Alguns trechos de Prometo ser breve:

PADRE
Perdeu a fé nos homens.
Desde então se devota às mulheres.

CARNAVAL
Fantasiou-se de político corrupto.
Foram quatros noites e três dias de impunidades.

EMPREGADAS
– Só este ano é a segunda vez que ela aumenta os seios.
– E o nosso salário, sempre do mesmo tamanho.

RATAZANA
Na casa enorme, vivia sozinha com sete gatos.
À noite, a solidão vinha lhe roer o coração.

AMOR IMPERFEITO
No jardim do peito, plantou amores-perfeitos.
Do coração dela, só colheu espinhos .

DESCOMPASSO
Casaram-se ao som d’As Quatro Estações.
O casamento não durou duas.

TRIÂNGULO AMOROSO
Hipotenusa amava Isósceles.
Faltava livrar-se do obtuso marido.

Conte-nos como despertou em você o interesse por microcontos.
Posso dizer que esse interesse nasceu de duas exigências coincidentes. A primeira delas diz respeito à concisão. Para ser mais acertado, diz respeito a um determinado conto que precisei adequá-lo às exigências de um concurso literário. A história se desenrolava em oito páginas, e o edital, como ocorre à maioria dos concursos de contos, limitava o tamanho dos textos a cinco laudas. Penei para reduzir o conto ao tamanho permitido. Mas depois de muitos cortes e acertos percebi que a história ficou melhor, ganhou ritmo novo. Tornou-se mais envolvente, impactante. Talvez isso fez com que o conto saísse vencedor do concurso. Com o prêmio, ganhei motivação para investir em outros contos, prezando sempre pela concisão e clareza. Por essa época recebi o convite para escrever em um encarte cultural que circulava aqui em minha cidade. A segunda exigência: em vista do espaço restrito a mim reservado, obriguei-me a trabalhar na feitura de contos curtos. Mais tarde, o responsável pelo tal encarte resolveu trazer de volta o jornal fundando pelo pai. Com o renascimento d’O Lince, ganhei uma coluna cativa, na qual desde então venho publicando minha ficção minimalista.

Em "Prometo ser breve" você lança, genialmente, mão de muitas vertentes literárias, crônicas, poesias, e outras. Como é reunir toda essa pluralidade em uma única obra?
A bem da verdade, este livro surgiu meio sem querer, quase involuntariamente. Surgiu muito mais do desejo de reunir o material disperso em meu PC do que o de aprontar uma obra para ser publicada. Para começar, fiz uma busca por gêneros, separando os textos por categoria: contos, poemas, pensamentos, ideias. Depois selecionei esse material por tamanho, juntando o que era microficção em uma única pasta de arquivo. Nela dei-me conta de que tinha basicamente três tipos de textos minimalistas: os conhecidos microcontos, algumas brincadeiras com a Nossa Língua (trocadilhos, jogos de palavras) e poemas curtinhos, os ditos poemínimos. O passo seguinte foi colocar tudo em um só arquivo e dividir o original em três partes: a primeira, chamei-a simplesmente de “Microcontos” (nela estão as histórias contadas em duas, no máximo três linhas); a segunda intitulei de “Reinações no Reino da Palavra” (em referência a dois grandes autores brasileiros: Monteiro Lobato e Carlos Drummond de Andrade. “Reinações” refere-se ao título da obra “Reinações de Narizinho”, e “Reino da Palavra” foram tiradas daquele famoso poema cujo verso nos diz: “Penetra surdamente no reino das palavras...”. Foi o que fiz, mas fiz com irreverência, imbuído do espírito lúdico de Narizinho); – e, finalmente, a última parte: “Doses homeopoéticas”, onde a poesia é ministrada em pequenas doses, diminutos versos, alguns não ultrapassando mais que uma linha. Tendo, enfim, preparado o original, enviei-o a várias editoras e, entre as interessadas, escolhi a Multifoco, não tanto pela qualidade gráfica do seu catálogo, mas principalmente pela forma inovadora com que publica seus autores. O “Prometo ser breve” estreou o selo 3x4, segmento dedicado à publicação de microficções, cujo catálogo, agora, já conta com outros títulos.

Você acha que a objetividade, o minimalismo de textos breves e a leitura rápida são tendências próprias do nosso tempo?
De certa forma, sim. Embora os minicontos tenham sido praticados em outros tempos, acredito que em nossa época este tipo de literatura encontre mais adequação e, portanto, mais interesse e visibilidade. A Internet colabora muito para isso. Tomemos o Twitter como exemplo. Lá os microcontos não são apenas uma tendência, mas sobretudo uma exigência, dado o limite de 140 caracteres. Essa linguagem veloz também pode ser uma resposta à ditadura da imagem à qual a nossa sociedade está sujeita. Dito de outro modo: não podendo concorrer com a imagem, a palavra de certa forma procura aliar-se a ela. Daí a semelhança entre alguns microcontos e certos textos publicitários, os quais, a propósito, quase sempre estão associados a alguma imagem, a uma marca. Sejam o que forem, a verdade é que os microcontos e os poemínimos são uma vertente literária (por paradoxal que seja) cada vez mais caudalosa, mais praticada. E antes que digam, aqui vai outro paradoxo: os textos minimalistas não vieram para reduzir a literatura, mas para ampliá-la; estão aí para somar, trazendo mais uma opção de leitura e, principalmente, de produção literária.

Microficção é uma marca sua, algo que você faz de maneira excelente. Pretende experimentar outros gêneros literários um dia?
De uns tempos para cá venho me dedicando mais a textos não tão curtos quanto os microcontos. Tenho trabalhado em pequenas histórias com uma estrutura muito próxima a do conto convencional. Como já dissera nesta entrevista, houve um momento em que escrevi contos de maior fôlego. Com esses, inclusive, até cheguei a ganhar concursos literários. No entanto, hoje me sinto mais à vontade escrevendo textos curtos, não importa se em prosa ou poesia. Graças a esta literatura enxuta reduzo o risco de aborrecer o leitor, e assim obedeço ao mandamento que deveria ser primordial a todo escritor: “Não chateais”.

Apesar de abordagens rápidas, você consegue alcançar o cotidiano com profundidade em seus textos. A ironia e a reflexão revelam um inconformismo? Uma vontade de propor uma mudança na sociedade através da Literatura?
Não digo uma mudança na sociedade, mas aposto na literatura como agente eficaz na mudança dos indivíduos. Os bons livros nos transformam. Particularmente devo muito à literatura. Foram os livros que me trouxeram o pendor para a reflexão, o gosto pela ironia e o hábito de olhar o mundo com curiosidade e a vida, com espanto, encanto e, às vezes, inconformismo. Se tivesse de eleger uma religião, escolheria a literatura, altar onde deposito minha fé.

Sem Contos Longos foi uma obra lançada por conta própria. Como foi essa experiência e qual o resultado criado até o lançamento de Prometo ser breve?
Uma ótima experiência, sem dúvida. Um pouco árdua, também. Teria sido, porém, mais difícil se eu não contasse com o apoio do proprietário do jornal O Lince, que me ajudou a bancar metade dos custos. Publicar de forma independente deu-me a dimensão de que como é complicado vender um livro sem o suporte oferecido pelas grandes editoras, isto é, sem uma divulgação direcionada e amplo sistema de distribuição. Mas não posso reclamar deste primeiro livro. Até porque não demorei para recuperar o investimento. Além do mais, foi graças ao Sem contos longos que muitas portas se abriram para mim. Não fosse ele, talvez eu ainda não me teria lançado como autor e, provavelmente, investiria menos no mundo literário, para o qual, aliás, sinto-me cada vez mais atraído e requisitado. As portas continuam se abrindo. Esta entrevista é uma delas. Aproveito o gancho para agradecê-lo pela oportunidade.

Que dica você deixaria para quem está começando a se aventurar como escritor no Brasil?
As dicas que deixo aqui servem para qualquer um que esteja começando a escrever, não importa onde. A primeira é bem simples: leia. Leia sempre. Mas saiba ter critério na escolha dos livros. Um leitor exigente é a base fundamental para um escritor competente. Segunda dica, mais óbvia: escreva. Escreva sempre. Mais do que escrever, reescreva. Reescreva sempre. Exija o melhor de sua escrita. Aprenda as técnicas, os recursos. Aprenda sempre. Molde-se como escritor. A publicação independente, hoje em dia, é uma realidade bem acessível; portanto, o mercado editorial conta com um número crescente de lançamentos e autores buscando um lugar ao sol. A concorrência é grande; poucos sobressaem. Não devemos nos iludir. Fama e sucesso, salvo em algumas exceções, não fazem parte do universo literário. Prestígio e reconhecimento, sim. O autor que quiser obtê-los deve se concentrar em lapidar a própria escrita, tornando-se apto a escrever de forma correta e atraente. E só então, em posse dessa condição, empenhar-se em ser publicado.



Prometo ser breve

Esta é a nova empreitada literária de Wilson Gorj. O livro reúne microcontos, aforismos, trocadilhos e poemas curtos, alguns, inclusive, talhados em apenas um verso. Publicada pela Editora Multifoco, a obra estreia o selo 3x4 microficções, focado na publicação de textos minimalistas. Nesses do autor predomina a ironia, temperada com doses de lirismo, reflexão e simplicidade. Com seu estilo conciso e irreverente, o livro cumpre o que promete. Prometo ser breve não é só uma leitura rápida, mas sobretudo agradável, da qual o leitor extrairá boas surpresas.


Gênero: microficção
ISBN:978-85-7961-107-0
Capa: Guilherme Peres
sobre obra de Jules Bastien-Lepage:
O engraxate de Londres (1882).
Editora Multifoco, 2010, 68 págs.
Preço: R$ 25,00

Onde comprar:
Com o autor -
gorj@jornalolince.com.br e wilsongorj2507@itelefonica.com.br
Pela editora -
http://www.editoramultifoco.com.br/

Wilson Gorj
Sem Contos Longos, 2007, edição do autor.
Prometo ser breve, 2010, editora Multifoco/RJ

Links

Revista Minguante (Sem Contos Longos):
http://www.minguante.com/?livro=sem_contos_longos
Jornal O Lince. Profa. Eloísa Elena discorre sobre meus textos:
http://www.jornalolince.com.br/2010/fev/pages/publicando-gorj.php
Site Cronópios. Crítico Márcio Almeida:
http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=4328
Crítico e contista Fernando Scarpel resenha Prometo ser breve:
http://scarpel-fernando.blogspot.com/2010/05/os-microcontos-de-wilson-gorj.html
Jornal Gazeta dos Municípios
http://www.scribd.com/doc/28573394/Jornal-18-03-2010
Germina Literatura
http://www.germinaliteratura.com.br/2010/prestreia_jun10.htm


Luís Delgado